Boate Kiss: processo contra pais de vítimas é criticado na Câmara

O presidente da Associação dos Familiares das Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Sérgio Silva, criticou o processo movido pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul (RS) contra três pais de vítimas da tragédia.
Segundo Silva, esses pais cobraram da instituição a responsabilização de gestores municipais na tragédia e criticaram a condução no andamento do processo. Ele participa de audiência pública que marca os mil dias do incêndio da Boate Kiss que matou 242 pessoas.
De acordo com Sérgio Silva, dois anos e meio após a tragédia os únicos culpados são os pais. Ele informou que Ministério Público do RS chegou a propor acordo, mas eles negaram. “O acordo proposto pelo Ministério Público é que os pais deveriam pagar uma cesta básica, um salário mínimo e se apresentar à Justiça a cada dois anos. Vocês acham que depois de perder um filho, vou me preocupar em ficar um ano na cadeia? Vamos deixar o processo correr e ver onde isso vai dar”, afirmou.
O deputado Arlindo Chinaglia (PT-SP) propôs que o Ministério Público do RS retire o processo. Para Chinaglia, não se pode conceber que promotores processem pais, cujos filhos foram vítimas de uma tragédia, por terem eventualmente feito críticas mais duras à instituição. “Em uma situação dessas, nós [deputados] temos o dever moral de ficar do lado das famílias”, afirmou o parlamentar. Ele sugeriu a criação de uma comissão externa para fiscalizar o andamento do processo e as ações do Poder Público realizadas para atenuar o sofrimento dos sobreviventes.
A sobrevivente do incêndio da Boate Kiss, Aline Henrique Maia, se emocionou ao falar da tragédia e lamenta que nada tenha mudado até agora: “Nosso sofrimento foi todo em vão. Muita gente pede para esquecer. Mas como vou esquecer se isso mudou completamente minha vida?”.
Aline ficou internada por 30 dias, adquiriu um problema pulmonar e gasta R$ 900 mensais com medicamentos. “Esses medicamentos eu sempre paguei por eles. Já entrei com processo na Defensoria Pública, ele já saiu, mas cada vez que chego na secretaria do estado há sempre uma desculpa”, criticou.
Outro sobrevivente, Gustavo Cadore, disse que uma das coisas que mais revolta é o fato dos pais passarem a ser réus no processo da tragédia de Santa Maria: “Quero que encontrem os verdadeiros culpados”.
Cadore também relatou que vários sobreviventes ainda não tem acesso a medicamentos, a materiais de fisioterapia, nem a transportes adequados para poder realizar o tratamento, que deveria ser oferecido pelo Poder Público.
O deputado Lucas Vergílio (SD-GO) manifestou solidariedade aos familiares e aos sobreviventes e cobrou uma legislação mais rígida para as casas noturnas.
O deputado Covatti Filho (PP-RS) também criticou a dificuldade de acesso aos medicamentos por parte dos sobreviventes. “Isso é o que mais me preocupa”, disse o parlamentar.
Agência Câmara de Notícias
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