Crise americana: Detroit, a cidade do automóvel, pede falência e entra em colapso fiscal

A Cidade do Automóvel pediu falência: Detroit, a capital do carro americano, uma das maiores cidades dos Estados Unidos, nos anos 1940, com quase 2 milhões de habitantes (foto de Mark Binelli/1942), vive momentos sombrios e colapso fiscal. A população abandonou suas casas e ruas inteiras estão desertas, lembrando os piores momentos de um filme de destruição em massa.
Reportagem publicada pelo diário Washington Post revela que o futuro da cidade que já foi símbolo do modo de vida americano perdeu 25% de sua população de 2000 a 2010. Hoje, a cidade tem apenas 700 mil habitantes, a maioria é pobre e muitos à beira da miséria absoluta. Cerca de 44% dos trabalhadores de Detroit são analfabetos funcionais.
Os dados fazem parte de um estudo acadêmico feito pelo professor Frank Shafroth, da Universidade George Mason e foram apresentados à Liga Municipal de Michigan, nesta sexta-feira.
Sob a perspecitiva da economia, Detroit morre aos poucos, afundada em uma dívida impagável de US$ 19 bilhões, em valores de março último. Dívidas resultantes de administração obscura e falta de governança dos gestores públicos.
A crise é tão grave que a criminalidade (que nunca foi baixa na cidade) salta a números alarmantes graças a dois aspectos urbanos básicos: 80 mil prédios abandonados e uma escuridão que atinge 40% da iluminação pública. A cidade é a divisa entre Estados Unidos e Canadá, o que faz aumentar o contraste entre a vida e a morte.
Detroit sequer pode pagar pela demolição desses imóveis abandonados, muitos habitados por traficantes e assassinos. Cada andar demolido custa cerca de US$ 8 mil, uma fortuna para quem já deve US$ 19 bi.
O pedido de falência registrado em julho por um interventor do governo do Estado de Michigan chocou até os mais pobres cidadãos locais e trouxe o medo de uma avalanche contra municípios com débitos bilionários acumulados.
O golpe moral maior atingiu os compradores de títulos municipais, cujo vencimento está previsto para 2015. A cidade não tem como pagar esses papéis.
A solução encontrada pelo governador republicano Rick Snyder foi nomear o advogado, Kevin Orr, para cuidar das sobras financeiras do município e tentar fazer acordo com os credores. Orr ofereceu centabos por uma pilha de papeis que antes valiam milhares de dólares. Ninguém aceitou o negócio.
Especuladores já plantam notícias sobre venda em leilão da valiosa coleção de arte do município.
Devido à falta de pagamento das dívidas, os serviços municipais praticamente foram destruídos, lembrando muito o que acontece em países africanos e sul-americanos, como o Brasil, por exemplo, nas cidades mais pobres: a polícia demora uma hora para atender a um chamado de emergência.
Nova York quase faliu em 1970
Em 1970, o presidente americano Gerald Ford teve de abrir os cofres federais para impedir Nova York de pedir falência. Nos Estados Unidos, qualquer pessoa física ou jurídica pode se submeter a uma auditoria judicial para arrumar as finanças e tentar pagar as dívidas acumuladas.
Se não conseguir arcar com os compromissos assumidos, o nome do devedor aparecerá em lista negra nacional, que o impedirá de comprar a crédito por sete anos.
Advogados de Washington acreditavam que o Federal Reserve (o banco central americano) pudesse repetir a dose de ajuda para salvar Detroit. Isso não aconteceu, talvez, porque outras 30 cidades dos Estados Unidos também estão com pedido de falência registrados.
No total, 31 cidades americanas declararam que não podem pagar o que devem, de 2010 a 2013. Em comparação, no mesmo período, 134 mil pessoas físicas pediram falência nos Estados Unidos.
Cidades como Pittsburg, Baltimore, Providence e Chicago lutam para atravessar a transição de centros industriais para pólos de serviços modernos. Analistas estão pessimistas com o sucesso nessa travessia, tendo Detroit com o referência do que não deu certo na administração pública, e mergulho nas dívidas.
Na opinião do analista Shafroth, que fez o estudo, “a falência é um processo, não uma solução. É um processo muito oneroso”.
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