Quando a Jamaica encontra o Nordeste

Misturar! Esse é o foco quando se trata do produtor paulista Eduardo Bidlovisk, também conhecido como BiD. Pode soar estranho ao grande público, mas quem participou de projetos como Afrociberdelia (Chico Science e Nação Zumbi), Funk Como Le Gusta, Pavilhão 9 e Mundo livre S/A, a sua mais recente criação vem sendo considerada a mais ambiciosa: O Bambas 2. O projeto tem previsão de lançamento para o fim do mês de outubro.
A sensação de provar do ‘novo’ é inevitável. BiD fundiu o reggae com os ritmos nordestinos. É o rastapé mais modernoso de que se tem notícia. Você já imaginou juntar “O Canto de Lavadeira”, de Karina Buhr, com o potente vocal do jamaicano Jesse Royal? Ou a sanfona jazzística de Dominguinhos com o spiritual reggae de Kymani Marley?
"Esse disco não é uma invenção. Eu simplesmente tentei ir mais fundo do que já se foi até agora", explicou o multi-instrumentista e produtor. O estalo, porém, veio em 2009, numa viagem de férias pela Jamaica. Durante um passeio de barco pelo mar caribenho, o produtor brasileiro colocou para tocar no CD-player o álbum Francisco, Forró y Frevo, de Chico César. "Quando botei, o piloto começou a improvisar em cima. Na hora, quando vi aquilo, pensei: vou fazer um disco assim. Vou a fundo nessa parada!".
Bid também já trabalhou com pessoas como Fernanda Abreu, Planet Hemp e Daúde que há tempos vem excitando plateias com um vibrante coquetel de soul, funk, acid jazz e samba-rock.
De volta ao Brasil, certo da urgência de Bambas 2, rapidamente compôs as músicas no violão,' com ajuda de Fernando Nunes e de Gustah - que também assina a produção. O primeiro passo foi gravar as bases dos temas, moldadas sob a identidade nordestina, do forró, baião, xaxado e maracatu. Nada de bateria. O frescor estava em fazer reggae a partir da zabumba, alfaia e triângulo, executados por especialistas como o maranhense Papete.
A segunda etapa se deu em Kingston, capital da Jamaica. Para BiD era fundamental que a parte vocal do trabalho fosse desempenhada por artistas de lá. Logo que pisou em território estrangeiro, num domingo, veio o primeiro desafio: Sizzla Kilonji e Kymani Marley. Os dois principais convidados do álbum teriam que gravar no dia seguinte, pois estavam com viagem marcada.
A surpresa inicial rendeu frutos. A única versão escolhida para o repertório é Something, dos Beatles, que traz o guitarrista Ernest Ranglin, um dos preferidos de Bob Marley, e o cantor Luciano. "Quando fiz a trilha de As Melhores Coisas do Mundo, a Laís Bodanzky me pediu uma versão dela, que iria aparecer só no final do filme. Fiz uma versão em reggae, achei que ia dar uma cara nova. Só que a Laís ficou meio em choque. Achou legal, mas queria que fosse mais Beatles mesmo. Eu fiquei com a versão reggae gravada. Quando pintou o Bambas 2, não tive dúvida: vou colocar Something!", explica.
Dominguinhos, um dos convidados da ala brasileira do álbum, conta que descobriu Bob Marley numa viagem com Gilberto Gil, em 1972. No encontro proposto por BiD, não há só a constatação desta similaridade, mas a certeza do nascimento de uma terceira via, desprovida de explicações conceituais.
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