Retaliação? Brasileiro detido em Londres é casado com jornalista que denunciou espionagem americana

Continua na pauta internacional de Brasil e Reino Unido a detenção por nove horas do brasileiro David Miranda (com foto na galeria), ao chegar ao aeroporto Heathrow, em Londres, no último sábado (17), em escala de um voo que saiu da Alemanha para o Rio de Janeiro. Miranda é casado com o jornalista do Guardian, Glenn Greenwald (foto), responsável pela divulgação do escândalo envolvendo a espionagem americana nos emails, ligações celulares, redes sociais e qualquer tipo de comunicação digital pelo mundo todo.
Há forte suspeita de que a detenção de Miranda tenha sido uma retaliação do governo britânico pelo trabalho jornalístico feito por Geenwald na divulgação do escândalo, que fere a reputação do governo norte-americano e as agências de segurança dos Estados Unidos. A Casa Branca teria pedido a prisão do brasileiro a autoridades inglesas.
Miranda voltava de um encontro com uma cineasta americana, que coleta informações documentais sobre o caso denunciado por Snowden e publicado por Greenwald.
Ao chegar ao Rio, o brasileiro recebeu o abraço de Greenwald ainda no aeroporto Tom Jobim. A primeira entrevista foi para o jornal The Guardian: "Os policiais queriam que eu contasse tudo...Diziam que eu iria para a cadeia se não falasse a verdade. Eu sabia que não havia feito nada de errado", disse Miranda.
"É altamente improvável que David Michael Miranda, em trânsito em um aeroporto do Reino Unido, tenha sido detido de forma aleatória, dado o papel que seu marido teve em revelar a verdade sobre a natureza ilícita de vigilância da Agência de Segurança Nacional (NSA) dos Estados Unidos", disse a diretora sênior de Legislação e Política da Anistia Internacional Widney Brown.
David foi detido sob a Cláusula 7 da lei antiterrorismo. "Simplesmente não há base para acreditar que David Michael Miranda apresente qualquer ameaça para o governo do Reino Unido. A única intenção possível por trás desta detenção foi perturbar a ele e a seu marido, o jornalista do Guardian Glenn Greenwald, por seu papel em analisar os dados divulgados por Edward Snowden”, ressaltou Brown.
A Cláusula 7 da lei antiterrorismo permite à polícia deter qualquer pessoa na fronteira do Reino Unido, sem exigência de apresentar uma causa provável, e mantê-la por até nove horas, sem justificativa adicional. O detido deve responder a todas as perguntas, mesmo sem advogado presente. É considerado crime para o detento se recusar a responder às perguntas - independentemente dos motivos da recusa - ou não cooperar plenamente com a polícia.
Recentemente, no dia 7 de agosto, Greenwald esteve no Congresso brasileiro explicando detalhes dos documentos coletados pelo espião Edward Snowden (exilado na Rússia, depois de ficar um mês no aeroporto de Moscou).
Snowden escolheu Greenwald para receber mais de 20 mil documentos secretos e divulgá-los ao mundo, detahando a espionagem que ele mesmo fazia em nome da National Security Agency (SNA), agência que cuida da segurança interna dos Estados Unidos. Tecnicamente, a operação de espionagem tem amparo duvidoso na lei antiterrorismo criada no governo de George W. Bush, após o atentado de Nova York e Washington, e que ainda vigora no governo de Barack Obama.
Os ministros das Relações Exteriores do Brasil e do Reino Unido, Antonio Patriota e William Hague, conversaram nesta segunda-feira (19), por telefone, sobre a detenção de David Miranda no aeroporto londrino.
Patriota e Hague definiram que representantes dos dois países permanecerão em contato na busca de uma solução para o impasse envolvendo o assunto. Em comunicado de dois parágrafos, a embaixada britânica informa sobre a conversa, mas ressalta que o assunto está sob responsabilidade da polícia londrina.
“O ministro das Relações Exteriores britânico [Wiliam Hague] teve uma conversa particular com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, sobre a detenção de David Miranda durante uma ligação telefônica esta tarde [19]. Eles concordaram que representantes dos governos brasileiro e britânico permanecerão em contato sobre o assunto. Esta continua sendo uma questão operacional da Polícia Metropolitana de Londres”, diz a nota.
Em seguida, a embaixada reitera que as relações com o Brasil são intensas e de estreita parceria: “O Reino Unido e o Brasil têm uma forte relação bilateral. Nós trabalhamos em estreita parceria em diversas áreas, incluindo comércio e investimento, educação e energia. Continuamos a discutir uma vasta gama de questões de importância mútua para a política externa e para a agenda de segurança internacional”, diz o embaixador britânico, Alex Ellis, no comunicado.
Antes do almoço, Patriota disse que a detenção de Miranda, ontem (18) durante nove horas, no Aeroporto de Heathrow, não se justifica. Miranda é companheiro do jornalista do diário inglês The Guardian, Glenn Greenwald, que divulgou informações sobre o esquema de espionagem do governo norte-americano.
“Espero que não volte a acontecer. Hoje mesmo deverei conversar com o chanceler William Hague, do Reino Unido”, disse o chanceler brasileiro, que, em discurso no Rio na manhã de hoje, condenou os “desmandos e desvios” que vêm sendo cometidos em nome do combate ao terrorismo no mundo. Segundo Patriota, há vários exemplos desse tipo de desmando, entre eles o enquadramento de pessoas mesmo sem justificativa alguma para a suspeita de envolvimento delas com o terrorismo.
“Continuamos a assistir alguns desmandos e desvios nessa questão do combate ao terrorismo. Reconhecemos que é um combate legítimo, que precisa ser articulado de forma a impedir que vidas inocentes sucumbam a atos de violência gratuita, mas também precisa se inspirar nos ideais de multilateralismo, direito internacional e racionalidade”, acrescentou Patriota.
Com AgBr
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