Com o crescimento das redes sociais e do consumo digital, o empreendedorismo online tornou-se uma das principais formas de geração de renda da atualidade. O empreendedorismo digital é uma forma de empreender através das plataformas digitais, muitas vezes impulsionado pela própria imagem pessoal do empreendedor. Essa prática tem crescido cada vez mais, tendo em vista que grande parte dos potenciais clientes está nas redes e utiliza essas ferramentas para encontrar produtos e serviços desejados.
Estratégias de SEO (Search Engine Optimization), traduzido como Otimização para Mecanismos de Busca, têm sido utilizadas pelos empreendedores para que os produtos sejam encontrados pelo público com mais facilidade e rapidez. Além disso, estratégias de tráfego pago e orgânico também fazem parte desse mercado, exigindo dos empreendedores constante capacitação para ampliarem as vendas.
Muitos empresários começam de forma tímida no mercado e, aos poucos, conquistam a confiança do público, como é o caso da influenciadora Kassiane Calve. Entre gravações de vlogs, vídeos curtos e conteúdos espontâneos, atendimentos de maquiagem e ensaios fotográficos, ela transformou as redes sociais em uma ferramenta impulsionadora do seu trabalho.
O que começou com vídeos simples e divulgação despretensiosa tornou-se um negócio. Kassiane já atuava como maquiadora e fotógrafa antes do crescimento nas redes sociais, mas foi no ambiente digital que enxergou a oportunidade de alavancar seu empreendimento. Hoje, além de vender cursos de maquiagem pela internet, ela também atua como influenciadora digital, realizando parcerias com grandes marcas, como Mercado Livre, Shein e Shopee, somando mais de 280 mil seguidores em suas redes sociais.
A trajetória da empreendedora reflete um cenário cada vez mais comum no Brasil: pequenos negócios que nasceram ou cresceram através da internet. Mais do que divulgar produtos, empreendedores passaram a transformar a própria imagem pessoal em estratégia de conexão e venda, utilizando plataformas como TikTok e Instagram para criar proximidade com o público e fortalecer a marca.
Segundo dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o faturamento dos pequenos negócios em vendas online saltou de R$ 5 bilhões para R$ 67 bilhões entre 2019 e 2024. A digitalização acelerou a forma de vender, divulgar e se relacionar com clientes, principalmente entre microempreendedores que utilizam as redes sociais como principal ferramenta de trabalho.
Dados da entidade também apontam que 74% dos empreendedores utilizam redes sociais para realizar vendas. Em 2025, mais de 720 mil pequenos negócios receberam apoio do Sebrae para fortalecer a atuação no mercado digital, por meio de cursos, consultorias e capacitações voltadas para plataformas como Mercado Livre, Shopee, Amazon, TikTok e Canva.
Redes sociais como vitrine de trabalho
Para Kassiane, a internet deixou de ser apenas uma forma de exposição e passou a funcionar como ponte direta entre o conteúdo produzido e os potenciais clientes. No início da carreira, a divulgação acontecia presencialmente, através de cartões distribuídos após eventos e ensaios fotográficos. Com o tempo, as redes sociais passaram a ocupar esse espaço.
“Eu postava muito no meu serviço, sempre gravava vídeos. Postava principalmente no meu perfil de fotografia para que as pessoas pudessem divulgar”, relata.
A produção de conteúdo passou a fazer parte da estratégia profissional da empreendedora. Ao perceber o interesse do público por maquiagem, Kassiane começou a publicar vídeos curtos com pequenas dicas e demonstrações rápidas, despertando curiosidade nos seguidores e incentivando a procura pelos cursos completos.
“Eu mostrava tudo muito rápido e falava que no curso eu ensinava com mais calma, poderia muito bem fazer um vídeo só ensinando delineado, mas como eu queria lançar e vender o meu curso, eu começava a não mostrar tanto do que eu poderia ensinar, para as pessoas ficarem curiosas de comprar o curso”, explica.
Além do conteúdo técnico, Kassiane percebeu que os seguidores se interessavam também pela sua rotina e sua vida pessoal. Foi então que os vlogs passaram a fazer parte da divulgação do trabalho. Segundo ela, os vídeos eram pensados estrategicamente para mostrar dias de maior movimento e reforçar a percepção de produtividade.
“As pessoas sempre queriam saber sobre a minha vida. Então eu comecei a fazer vídeos focados na minha rotina, e o que era a minha rotina? Trabalhar. Eu quero que as pessoas me vejam trabalhando. As pessoas pensam que elas vão estar conectadas à minha rotina, mas eu só quero que elas estejam conectadas ao meu trabalho, “ diz Kassiane.
A estratégia reflete uma das principais características do empreendedorismo digital atual: a construção da marca pessoal. Mais do que vender um produto ou serviço, empreendedores passaram a utilizar a própria imagem para criar identificação e confiança com o público.
“Quando o primeiro vídeo do meu trabalho vizalizou no tiktok, eu fiquei abismada em como o alcance era tão grande. Eu já trabalhava com isso a tanto tempo, mas isso nunca tinha acontecido. As pessoas queriam o meu trabalho, queriam me conhecer. Foi realmente uma transição radical quando eu intensifiquei meu trabalho através do digital”, conta.
O empreendedorismo feminino nas redes
Grande parte das estratégias adotadas pela empreendedora também está ligada ao público feminino. Kassiane afirma que passou a direcionar conteúdos, parcerias e publicações para mulheres, entendendo que esse era o público que mais consumia seus serviços. Moda, maquiagem, beleza e rotina passaram a ser temas frequentes nas redes sociais da influenciadora, ajudando a fortalecer a presença digital e ampliar o alcance do trabalho.
Mesmo diante das dificuldades, Kassiane acredita que o empreendedorismo digital pode abrir portas, gerar renda e criar novas oportunidades de trabalho, principalmente para mulheres que encontram nas redes sociais uma possibilidade de independência financeira e crescimento profissional.
Para Danilo Lisboa Borges, Economista e Analista Técnico do Sebrae, o crescimento do empreendedorismo feminino nas redes sociais representa mais do que uma tendência digital: é também uma ferramenta de autonomia financeira e fortalecimento econômico para muitas mulheres. Segundo ele, esse mercado vem crescendo de forma significativa e exige atenção das instituições de apoio ao empreendedorismo, principalmente no sentido de oferecer orientação para que esses negócios se tornem sustentáveis a longo prazo.
“O desafio é entender esse novo modelo de negócio e proporcionar orientações que tornem essas empreendedoras cada vez mais sustentáveis, para que não dependam apenas de trends ou momentos passageiros da internet”, destaca.
Além dos avanços, a empreendedora também relata desafios enfrentados no início da carreira, principalmente relacionados à desvalorização do trabalho autônomo e digital.
“Quando comecei a fotografar, ouvi muito: ‘vai ficar só fazendo isso?’. Existia muito preconceito com quem escolhia empreender em vez de seguir um trabalho tradicional.”
De acordo com o relatório do Ministério do Empreendedorismo, da Microempresa e da Empresa de Pequeno Porte, referente ao primeiro quadrimestre de 2025, foram registradas 1.815.912 novas empresas, por outro lado, 973.330 empresas encerraram suas atividades. O cenário fica ainda mais alarmante, segundo dados do Indicador de Falências e Recuperação Judicial da Serasa Experian, o terceiro mês de 2025 bateu o recorde do ano em pedidos de recuperação judicial: foram 187 requerimentos protocolados, um avanço de 2,2% em relação ao mesmo período de 2024.
Esses números refletem o cenário atual do empreendedorismo: ao mesmo tempo em que muitos empreendedores recebem apoio e incentivo para iniciar seus negócios, uma parcela significativa ainda enfrenta dificuldades que levam ao encerramento das atividades.
Visão Econômica: Visibilidade vs. Lucratividade
A democratização das redes sociais, dos pagamentos eletrônicos e do e-commerce permitiu que empresas de diferentes portes alcançassem mercados antes inexplorados. O crescimento do mercado de influenciadores digitais movimenta hoje uma cadeia inteira de prestação de serviços ligada à produção de conteúdo.
Entretanto, especialistas alertam que a mera presença digital não é garantia de sucesso financeiro. Para transformar a "vitrine virtual" em resultados sustentáveis, o planejamento é indispensável.
Analisando esse cenário de transformação econômica e os desafios práticos enfrentados pelos microempreendedores, Danilo Lisboa Borges pondera:
"O ambiente digital reduziu drasticamente os custos para captar clientes e criou uma vitrine virtual capaz de alcançar consumidores em qualquer lugar. Hoje, com a popularização dos smartphones e o aumento da conectividade, as redes sociais passaram a fazer parte da rotina da maioria da população, tornando-se ferramentas essenciais para comunicação, divulgação e vendas. Entretanto, é preciso reforçar que o crescimento no meio digital depende não apenas do alcance, mas fundamentalmente de planejamento e estratégia para transformar essa visibilidade em faturamento real e lucro."
Para apoiar os empreendedores nessa transição de "criadores de conteúdo" para "gestores de negócios", o Sebrae oferece orientações e metodologias específicas, ajudando a estruturar o posicionamento digital de forma financeiramente saudável e estratégica.
